Na data de hoje (25 de julho de 2019) fazem seis meses que a barragem da Vale em Brumadinho se rompeu e no mínimo 248 vidas brasileiras se perderam estupidamente. A Vale fala em “tragédia” e “compensações”. A população local tem uma leitura muito mais correta. Fala em crime, e a palavra de ordem em suas manifestações é certeira: “O lucro não vale a vida”.

A discussão, no entanto, deveria ser mais profunda. Vivemos há pelo menos 30 anos numa cultura de restrição financeira generalizada. A ordem em qualquer empresa privada é cortar custos obsessivamente. Trata-se de uma cultura estabelecida, uma crença em falsas verdades que afeta a rotina dos serviços públicos de maneira ainda mais forte. A ordem é retirar recursos, condenando a qualidade do serviço prestado e/ou produto vendido. Tanto faz se é uma escola sem livros, um hospital sem gaze, uma delegacia sem computador, ou uma mineradora riquíssima sem piezômetros de qualidade.

Corta-se tudo sem qualquer critério, pois o necessário é manter e aumentar as margens de lucro. Até daquilo que não é feito para dar lucro (como escolas, hospitais e delegacias públicas, por exemplo).

2.000.000 metros cúbicos de material contaminante, mal monitorados pela Vale por decisão. Executivos atrás de bônus em dinheiro e piezômetros velhos.

Mas no caso da Vale em Brumadinho, a manutenção da margem de lucro mostrou bem a cara assassina da cultura de restrição econômica. Ali, a mineradora riquíssima conseguiu a proeza de monitorar a compressão de dois milhões de metros cúbicos de material contaminante com piezômetros velhos e desatualizados.

O que é um piezômetro? É um equipamento de monitoramento geotécnico que serve para medir a compressão exercida por líquidos confinados (pressão estática). É usado em lençóis freáticos, poços, reservatórios, barragens etc.

Aquela imagem terrível da barragem se rompendo mostra o que são 2.000.000 de metros cúbicos de material. Como a Vale poderia considerar medir a pressão estática daquele volume de material com instrumentos antiquados e velhos?

Informação das internas

Conversando com amigo especialista em mineração, que conhece muito bem o setor e escreve para uma revista setorial sobre a área, a explicação apareceu em toda a plenitude e horror.

Há alguns anos, a Vale iniciou uma política de descentralização de suas operações. Cada mina gerencia seu cotidiano operacional. Cabe àqueles gerentes definirem os materiais e instrumentos que usam, insumos que compram, serviços que contratam etc. Com um detalhe: as bonificações financeiras aos gerentes eram calculadas de acordo com o quanto de custos eles conseguiam cortar em suas operações, a fim de melhorar o resultado consolidado da matriz.

Exemplo de piezômetro. Equipamento não é caro, cortar custos com piezômetro era o que se chama de “economia porca”.

Assim, porcarias como a de Brumadinho se tornaram comuns. Os gerentes, na ura de conseguir bonificações que chegavam a até 14 salários a mais por ano, faziam de tudo para cortar o que podiam. O resultado não demorou para aparecer: 248 mortos (por enquanto) naquele horror em Brumadinho. Afora o rio Parauapebas, que também morreu.

Aplique o mesmo raciocínio a Mariana, sem medo de errar.

Restrição econômica e a asfixia ao desenvolvimento

Meu argumento em prol de um novo ciclo de desenvolvimento para o Brasil é sempre o da reindustrialização, contra a opção tácita pela exclusiva exploração de recursos naturais visando a exportação de commodities, pois isso eterniza a chamada Doença Holandesa (quando exportação de recursos naturais se torna mais vantajoso do que a manufatura sofisticada, causando permanente desindustrialização e comprometendo o desenvolvimento).

Mas, hoje, mesmo a produção de recursos naturais para a exportação sofre com algo que é mais grave: a ordem para comprimir custos sob qualquer circunstância é um instrumento de morte. Morrem direitos, empresas, empregos, pessoas. É o próprio horror econômico acontecendo entre nós, neste momento.

Esta política insana é defendida com o argumento de que a nossa economia, quando estiver bem restrita, será considerada séria e confiável, e aí então o dinheiro vindo de fora virá comprar tudo, “investir no Brasil”, e nos salvar do desastre.

Mentira rotunda: a asfixia econômica serve só para nos deixar de joelhos mais uma vez, incapazes de defender as vidas e os empregos brasileiros. Deixando muitas mortes pelo caminho. Passou da hora de rediscutir honestamente a cultura de cortar e restringir custos sob qualquer circunstância.

Por Fausto Oliveira