Há alguns anos forçaram a criação de um consenso na classe média brasileira em favor de políticas neoliberais, martelando na cabeça de todos nós que as contas públicas são o único problema real no país, e que a única causa para o déficit público seria a corrupção em órgãos públicos e estatais. Resultado: finalmente elegeu-se um governo que tenta praticar o neoliberalismo em estado puro e assumido (a ressalva é que nos governos do PT o neoliberalismo foi praticado, mas disfarçado com políticas sociais compensatórias).

Quase cinco meses depois, como não poderia deixar de ser, os sinais do desastre aparecem. Desemprego crônico e subindo, desalento social, alta de preços essenciais que se reflete em alta de preços de varejo. Já aparecem vozes – e não são poucas – a pedir a anulação do contrato demoníaco que foi assinado quando da eleição de 2018. (Ressalvando novamente que 2018 significou apenas uma carta branca para aprofundar aquilo que os governos de Dilma Rousseff e Michel Temer já faziam).

O choque de realidade deveria convidar a classe média a uma reflexão. Por que caiu nessa baboseira de livre mercado com extrema desregulação, barateamento do trabalho, redução de capacidades nacionais e estímulo ao “cada um por si deus por todos”?

Para ajudar essa reflexão, invertemos a pergunta: por que a classe média deveria apoiar o desenvolvimentismo?

Porque seu trabalho e sua renda não são garantidos

A classe média quis acreditar, mas… emprego é emprego, e empreendedorismo é risco. Pode dar certo aqui e ali, mas para o grosso deste setor da sociedade, a vida acontece sem estoques de capital. Não há chance de todos os novos “empreendedores” conseguirem ir de capital zero à riqueza apenas com o suor do rosto. E a razão é simples: não há estoque de capital o bastante para que todos o apliquem ao mesmo tempo em projetos de risco variado. Mesmo que houvesse, vejam os juros brasileiros! Então, a ideia de prosperidade necessária via empreendimentos individuais é falsa porque as famílias de classe média não podem deixar de ter dinheiro agora para vir a ter mais depois. E o destino da maioria destes “empreendimentos” é o fracasso, pois os poucos recursos que geram não podem ser reinvestidos, e o consumo familiar acaba canibalizando o projeto microempresarial.

A classe média deveria, portanto, apoiar políticas de retomada do emprego formal e seguro, como grandes obras de infraestrutura, a recuperação do grande patrimônio empresarial público e privado nacional, uma política exportadora competente e ativa, a redução no aviltante número de pessoas com nome sujo no crédito por dívidas pequenas, entre outras.

E quando fosse perguntada como financiar isto, a classe média deveria responder: taxando dividendos e lucros corporativos para investidores, sobretaxando os altíssimos salários da burocracia, usando a taxa de câmbio desvalorizada para exportar mais, apoiando o registro de marcas e patentes nacionais, regulando preços essenciais como o dos combustíveis, usando até 20% das reservas internacionais do país, entre outras possibilidades.

Porque não pode suportar o aumento da crise social

A classe média que vive nas cidades grandes e médias já não suporta mais a insegurança. Embora os pobres a sofram de maneira incomparavelmente pior, admitamos que os setores médios também a sofrem e têm sua razão para exigir um cotidiano de mais tranquilidade.

Ocorre que com a forte alta do desemprego cultivada pelo neoliberalismo, a tendência é que mais miseráveis e famintos perambulem pelas ruas, enlouquecendo aos poucos por privação material e espiritual.

O inevitável aumento da crise social será ainda mais insuportável para a classe média, que ficará cada vez mais acuada em seus apartamentos (que ela chama de próprios, mas pertencem a bancos que só lhes entregarão quando receberem um valor duas vezes maior).

A vida que aguarda a classe média em um futuro breve, se a crise social aumentar, não será a de alegres idas a restaurantes no fim de semana e viagens esporádicas. Será a de acuamento e medo das ruas.

Porque precisa de bons serviços públicos

Uma das retóricas neoliberais mais usadas recentemente no Brasil é a do “pagador de impostos”. A classe média é quem mais os paga, e acha que pouco ou nada recebe em troca. Ora, se quiser um dia poder não pagar um plano de saúde, ela precisará de saúde pública robusta, e não sucateada. Se quiser não pagar mensalidade de escola para os filhos, ela precisará de escola pública de excelência, e não uma deteriorada.

Não será com uma linha política privatizadora que a classe média usufruirá com justiça dos impostos que paga. Ao contrário, pagará ainda mais pelos serviços privados sempre dominados por poucos grandes grupos empresariais. E àquele que disser que isso permitirá a redução dos impostos – numa espécie de troca que deixaria o gasto igual, mas pelo menos teriam a eficiência do sistema privado – a classe média deveria dizer: não se esqueça que o país paga impostos altos para sustentar um Estado que é servo do sistema financeiro privado, o grande dono de seus títulos de dívida remunerados a juros historicamente altíssimos.

Porque a precarização do trabalho também lhe atinge

Converse com qualquer pessoa no Brasil de hoje sobre desemprego e aparecerão históricas nada glamurosas. Em lugar do empreendedor de sucesso que aparece na TV, é muito mais provável conhecer a história de um engenheiro que virou Uber, ou um químico farmacêutico que vende bolo. Esse tipo de coisa deveria despertar a fúria da classe média, pois é justamente nos diplomas universitários (preferencialmente nas excelentes universidades públicas brasileiras) que ela sempre depositou sua esperança de melhorar de vida.

Ocorre que para o engenheiro voltar a ser engenheiro, é preciso ter muitas grandes obras (aquelas mesmo que fazem muita falta a todos nós, como metrôs, estradas, túneis, portos e aeroportos etc etc). Para que o químico farmacêutico volte a ser o que é, precisa que o país forme um complexo industrial farmacêutico que lhe dê trabalho (ao mesmo tempo que produz remédios e vacinas altamente necessários para um país cheio de epidemias tropicais mas que, por outro lado, é dono da maior biodiversidade do planeta).

Porque não pode suportar recessão com inflação

Finalmente, a classe média brasileira parece não ter entendido ainda que o nosso país é dado a certas particularidades. Uma delas é a ocorrência simultânea de recessão com inflação. Trocando em miúdos, isso não é lá muito normal porque numa economia se a atividade está mal e o desemprego alto, a demanda cai e o preço cai junto. O contrário deve, portanto, ser verdadeiro. Mas no Brasil, a alocação dos recursos é tão desequilibrada em favor do setor financeiro que o desequilíbrio das demais relações é total.

E aí vem um grande paradoxo: a atividade econômica privada no Brasil responde melhor à retirada de recursos do setor financeiro em direção à economia real do que à retirada de recursos do Estado em direção à economia real.

Pode ser contraintuitivo, mas é real. A carga tributária no Brasil poderia até crescer (e deveria crescer mesmo, mas sobre a renda dos mais ricos e sobre o rentismo), que a atividade econômica não seria necessariamente afetada.

Por outro lado, experimente baixar os juros e desconcentrar o oligopólio financeiro, e você verá níveis de atividade econômica e crédito para tudo (inclusive para empreendimentos familiares sustentados no tempo), que faria babar qualquer defensor da economia de livre mercado.

Conclusão

A classe média brasileira deveria apoiar o desenvolvimentismo porque ela depende dele para não perder o pouco que lhe resta de condição socioeconômica no presente, e também porque depende dele para criar perspectivas de futuro para seus filhos e netos. A cantilena da “austeridade trazendo confiança” é uma verdade falsificada que vem sendo usada para enganar este segmento social a fim de que o setor financeiro se aproprie de nacos ainda maiores da renda nacional.

Há, porém, duas boas notícias para a classe média: uma é que este processo acontece em vários lugares do mundo também, e podemos estudá-los (Argentina, Grécia, Espanha, Portugal, Inglaterra, França, Alemanha); a outra boa notícia é que a História não acaba nunca, e sempre poderemos mudar de caminho.   

Por Fausto Oliveira