O que está em curso no Brasil de hoje é uma chacina.

As armas foram apontadas e já começaram a atirar contra tudo aquilo que pode representar uma possibilidade de futuro decente e importante para o país e seu povo. Em pouco mais de quatro meses, a tônica de destruição de tudo o que o Brasil poderia vir a ser está mais do que clara. E o resultado dessa política de desfazimento do país não pode ser outro que não a morte das potencialidades e possibilidades que este povo, ainda que precariamente, mantém.  

Cortes mortais na pesquisa científica. A comunidade científica está em pânico. E o povo brasileiro deveria estar em pânico solidário junto a ela. Porque apesar das históricas dificuldades, o Brasil sempre conseguiu progredir nas pesquisas científicas em várias áreas de conhecimento puro e aplicado. Pensemos no que já desenvolvemos em termos de vacinas, fármacos, sistemas e equipamentos, técnicas agrícolas, irrigação e dessalinização, alimentos, energia limpa e renovável, gás e petróleo. Pense no Instituto Butantan, na Fiocruz, na Embrapa, em todas as universidades federais e toda sua enorme contribuição para trazer mais qualidade de vida à população, produtividade para a economia e projeção para o país diante do mundo. Tudo isso agora está ameaçado de ir por água abaixo apenas por um dogma economicista que determina um equilíbrio fiscal absoluto mesmo que deixando terra arrasada.

Entrega criminosa da Embraer. Nossa pérola industrial foi jogada aos porcos. O grande público pode não ter sido informado a tempo de protestar, mas o Brasil se tornou um bem-sucedido fabricante de aviões. Um dos maiores e mais lucrativos mercados do mundo. Ainda que cotada em bolsa e remunerando capitais privados, a Embraer sempre foi um polo de qualificação produtiva nacional. Com sua ida para os Estados Unidos, vão-se junto as carreiras profissionais ligadas à engenharia aeroespacial; as empresas fornecedoras que tinham que abrir ou se instalar no Brasil para formar a cadeia; o enorme dinamismo econômico trazido por um complexo industrial aeroespacial; o potencial de entrar em grandes mercados do futuro como é o caso do transporte aéreo não tripulado. E, claro, vão-se embora os bilhões de dólares que o país receberia de forma permanente por ter sido líder do mercado de aviação comercial de porte médio e de ter desenvolvido sozinho o maior cargueiro militar do mundo, o KC-390.

Primarização e esfacelamento da Petrobras. Quando se fala em Petrobras, estamos falando de todo um sistema de empresas. Olhar a empresa matriz (a original) é ver apenas uma parte, aquela que talvez seja mais simbólica. O fato é que ao longo das décadas, a maior empresa brasileira tornou-se um complexo industrial de petróleo, gás e derivados. Nos derivados, estamos falando de coisas como gasolina, diesel, asfalto, resinas, coque de petróleo e muitos outros produtos que se encadeiam na economia nacional de muitas maneiras. Ao esfacelar o Sistema Petrobras e tentar reduzi-lo à exploração pura e simples do petróleo cru para exportação, estão condenando o país à mais cruel dependência em relação a todo o resto. Em consequência, ficaremos ainda mais vulneráveis aos choques de preços internacionais (devido à flutuação do câmbio) e ainda mais vulneráveis aos interesses das empresas internacionais que vão dominar a produção e distribuição de combustíveis para a população.

Empobrecimento generalizado. A manutenção de aberrações como o chamado Teto dos Gastos (PEC 95), e piorada com iniciativas como a privatização da Previdência social no sistema bancário-financeiro, vai ajudar a aniquilar aquele que talvez seja o recurso mais precioso do Brasil: sua gente. Aos poucos, fatos econômicos que já afetam o povo (como a alta de preços, o endividamento das famílias e a persistência do desemprego) serão agravados pelo endurecimento da austeridade fiscal, levando a uma falta de meio circulante na economia que levará a uma ainda maior recessão. A previsão de crescimento para 2019 já se apresenta pífia e insignificante. A máquina de destruição de empregos e compressão para baixo da classe média continuará seu trabalho de deprimir a sociedade. Necessitado de apoio e assistência pública, o povo encontrará menos serviços públicos para lhe atender, pois a ideologia reinante lhe mandará bater na porta dos serviços privados. Claramente, os índices de exclusão e violência social crescerão.

Matança de pessoas a pretexto da segurança pública. Tudo soa como uma estratégia: ao mesmo tempo em que as decisões macroeconômicas trarão mais recessão e desemprego, levando inevitavelmente a mais violência social, liberam-se as armas para o uso daqueles que se mantêm no extrato social mais rico. A equação funesta aponta o seguinte resultado: os encontros cotidianos entre excluídos desesperados e os ricos armados terminarão em mais mortes, que sempre serão justificadas nos termos da nova lei que lhes protegerá sob a noção ampliada de legítima defesa (violenta emoção, temor real etc).

Nunca antes ficou tão clara a conexão entre o projeto de depredação da economia nacional e a exclusão sumária e violenta dos trabalhadores do Brasil.

Por Fausto Oliveira