Vai ser lançado no dia 16 de abril, em São Paulo, um livro indispensável. Estatais é fruto de uma pesquisa profunda de dois professores: Irene Patrícia Nohara e Alessandro Octaviani. Seu objetivo é contrapor, com muitos dados e fatos do Brasil e outros países, a visão de que toda empresa estatal é ineficiente e passível de uso político. Além disso, afirmam com todas as letras que as empresas públicas devem ser vistas e avaliadas por um critério próprio, e não apenas “de mercado”. Sua obra vem num momento especialmente importante, em que o risco é alto para as capacidades produtivas futuras do Brasil.

Irene Patrícia Nohara concedeu entrevista ao Novo Desenvolvimento sobre seu novo livro. Ela é Livre-Docente e Doutora em Direito do Estado da USP. Também é Professora-Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Direito Político e Econômico da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde é Líder do Grupo de Pesquisa Modelos de Gestão e Eficiência do Estado.

Leia abaixo a entrevista.

Gostaria de começar pelo livro. O que Estatais apresenta? Como foi e o que buscou a pesquisa? A que resultados chegaram?

Estatais é uma obra escrita a “quatro mãos”, feita por mim e pelo professor em Direito Econômico da USP, Alessandro Octaviani, um grande pesquisador preocupado com as questões de desenvolvimento, que apresenta as empresas estatais do prisma do Direito Econômico e do Direito Administrativo, a partir de dados atualizados. Ela traça um panorama das estatais no mundo, o histórico no Brasil, o regime jurídico, estatais em espécie, para o fim de esclarecer o papel dessas empresas no desenvolvimento dos Estados Capitalistas Contemporâneos. Foi uma pesquisa que utilizou multimétodos: primeiramente, o método empírico para levantar as estatais de diversos países, sendo utilizados, para estatais federais, os dados compilados no Boletim do Ministério do Planejamento e, para as estatais estaduais, foram feitos levantamentos criteriosos de dados nas Juntas Comerciais dos Estados e nos sites dos governos, bem como, na ausência de informações nesses dois repositórios, em portais de transparência dos Estados-membros. Chegamos a resultados surpreendentes justamente na contramão do que insinua as políticas de desestatização tão em voga no Brasil, dada importância dessas empresas em relação à promoção de condições de desenvolvimento em setores estratégicos da economia nacional.

Com a pesquisa concluída, creio que uma pergunta objetiva se coloca: o Brasil tem consciência real sobre suas empresas estatais, em termos de sua importância, escopo de atuação e produção? 

Infelizmente não tem… É uma lástima que, no Brasil, que é um país em desenvolvimento, não há consciência da importância do Estado, em sentido amplo, enquanto veiculador e promotor do desenvolvimento socioeconômico. Somente fomos aptos a sair de uma condição de total assujeitamento nas trocas internacionais quando, no nosso País, houve a estruturação técnica e operacional do Estado para que, inclusive, a partir das estatais, houvesse, inicialmente, a formação de uma indústria de base, com condições de produção de insumos necessários para que houvesse o florescimento da industrialização. Em cinquenta anos do século passado, com marco inicial na década de 30, nos transformamos de um país agrário e exportador de commodities (produtos primários, como o café), pronto para abastecer o mercado internacional, para um país industrializado, urbanizado, com uma classe média solidificada e com melhores condições de atender ao bem-estar de sua população, na formação de um mercado interno diversificado e, portanto, com maior complexidade.

Construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Volta Redonda em 1941. Inicialmente Estatal , contribuiu decisivamente para a industrialização do país.

Neste ínterim, as estatais foram mudando estrategicamente sua conformação, mas, em sua grande maioria, tiveram um papel alavancador do desenvolvimento do País. A expansão de nossas fronteiras agrícolas, a extensão rural dos conhecimentos e a produção de tecnologia de ponta na produção agrícola brasileira, por exemplo, não teriam ocorrido sem a atuação da Embrapa. Antes de sua criação, o antigo Departamento Nacional de Pesquisa e Experimentação Agropecuária (DNPEA) padecia de falta de quadros técnicos de pesquisadores qualificados, falta de incentivo aos pesquisadores, inexistência de coordenação eficiente das pesquisas agropecuárias, falta de escalas de prioridades, falta de um sistema de monitoramento da aplicação das pesquisas e inexistência de entrosamento entre pesquisa, ensino e extensão rural. A Embrapa foi criada na década de 70 como empresa pública, incorporou a estrutura do antigo DNPEA, ganhando musculatura para administrar o sistema de pesquisa agropecuária no País. Criou, em cooperação com diversos países, laboratórios virtuais (os chamados Labex, sem infraestrutura e operados por convênios) com os Estados Unidos, a França, a Inglaterra, a Coreia e a China, sendo enviados muitos pesquisadores brasileiros para diversos países para realizarem projetos de interesse comum e também para, depois, desenvolvem as potencialidades da “agricultura tropical” brasileira. Houve um planejamento mais articulado de medidas para a expansão da tecnologia agrícola no Brasil, em que foi acoplado com a disponibilização de crédito rural para os agricultores, sendo estimulada a construção de estradas no País, sendo alcançadas, então, condições para a expansão de atividades agrícolas com tecnologia agregada: para os cerrados, para a Amazônia e para os demais biomas. Atualmente, o Brasil é um celeiro agrícola mundial de grande produção por conta do estímulo dado pela Embrapa, que teve também sucesso em sua política de recursos humanos, estimulando a pesquisa em nível de mestrado e doutorado tanto no Brasil como no exterior no segmento. Os planos de carreira eram de excelência, com remunerações adequadas e incentivos contínuos. Hoje vemos pessoas falarem: vamos privatizar a Embrapa porque “ela não dá lucro”… Veja, a Embrapa alavanca a proposta de Estado que empreende científica e tecnologicamente, para melhoria da produção agrícola, com técnicas mais avançadas e com capacitação e estímulo à extensão rural. Não se trata de uma “fábrica” de produtos agrícolas, que, depois irá vender hortifruti na feira, para vermos se dá ou não dá lucro… Se, em 2015, o Brasil atingiu, segundo dados do IPEA, o patamar de terceiro maior exportador de produtos agrícolas no mundo, somente atrás dos Estados Unidos e da União Europeia, isso se deve ao labor qualificado dos cientistas e técnicos da Embrapa, que depois abastece de técnicas e incentivos os produtores rurais. Se o agronegócio é atualmente responsável por aproximadamente 20 a 25% da economia nacional, esse dado tem relação com os 50 anos de modernização da produção agrícola, sendo que, não por acaso, são os últimos 50 anos de criação da Embrapa.

Unidade da Embrapa dedicada à aquicultura e pesca. Só um de vários exemplos de como esta estatal brasileira levou o agronegócio privado a um patamar superior.

Não se trata só de exportar commodities, trata-se de inserir tecnologia, tornar a produção mais complexa, para alçar uma condição melhor nas trocas internacionais e também para o fornecimento interno, atendendo às necessidades do Brasil. Esse é só um exemplo, que explicamos no livro, mas há também outras estatais em espécie que abordamos, como, por exemplo, a Caixa Econômica Federal. Esta também tem uma importância inquestionável. A Caixa foi criada por Dom Pedro II. Tem uma história emocionante, simplesmente linda, para quem tem visão social! Trata-se de um dos maiores bancos públicos da América Latina. Foi constituída pela poupança de homens e mulheres de baixa renda, submetidos a trabalhos braçais e pequenos comerciantes que fugiram da agiotagem… Um ponto alto da Caixa é que foi a única forma que os negros possuíam então para poupar e adquirir suas cartas de alforrias no Brasil, ainda sob o jugo da escravidão, sendo que, a partir de suas poucas economias, eles começavam uma vida sem ter de se (re)submeter aos mandos e desmandos de seus ex-senhores, se não fosse a Caixa… Inclusive o Luiz Gama apoiou a luta dos negros pela emancipação. Era a única alternativa segura e foi a única forma de pessoas de baixa renda pouparem durante muito tempo na história do Brasil. A partir de Getúlio Vargas, a Caixa começa a atuar como intermediadora financeira, voltada à concessão de crédito imobiliário. Na década de sessenta, a Caixa assume a gestão das Loterias Federais, sendo essa atividade imprescindível para alçar fundos para políticas sociais. Nos anos setenta, foi constituída como empresa pública vinculada ao Ministério da Fazenda, e, em 1986, ao suceder o Banco Nacional de Habitação (BNH), a Caixa passa a ser o maior agente nacional financiador da casa própria. Poucos sabem, mas a Caixa também financiou o desenvolvimento urbano, com foco no saneamento básico. Ela é responsável pela administração do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), do PIS e do Seguro-Desemprego, sendo implementadora de programas sociais como o Bolsa Família, a Farmácia Popular e o FIES. Imagine então o quanto a Caixa contribuiu com o desenvolvimento social desse nosso País… Poucos sabem dessa importância das estatais, poucos sabem que elas foram responsáveis por alavancar infraestrutura para o nosso País, poucos sabem que sem elas, não serão as empresas privadas que se preocuparão em estruturar ações de maior universalização de serviços públicos e, nas atividades econômicas em sentido restrito, para a realização dos imperativos da segurança nacional e o relevante interesse coletivo, ao passo que, em outros Estados, há inclusive um escudo contra a presença de estatais de outros Países em suas economias, por questões voltadas à segurança nacional (Estados Unidos), ao interesse público (Inglaterra), ao interesse social fundamental (Finlândia) ou à segurança da economia nacional (China), conforme apontamos na obra Estatais. E, no Brasil, curiosamente, se celebra quando uma estatal é vendida para uma estatal de outra nação, com o discurso errôneo de que as estatais são obsoletas…

CEF foi criada no Segundo Reinado, e sua história centenária tem resultados muito maiores do que apenas o lucro financeiro. A Caixa garantiu liberdade de ex-escravos e financiou muita infraestrutura no Brasil.

Na verdade, sabemos que há uma campanha difamatória de longa data contra as estatais brasileiras. Na sua avaliação, que interesse político se esconde por trás da desinformação e difamação das estatais brasileiras?

Existe sim, exato! É nesse ponto que eu gostaria de chegar…. Em primeiro lugar, a questão da desestatização. Após o Consenso de Washington, houve, no mundo, toda uma campanha em favor das privatizações das estatais de países periféricos, como os da América Latina e os da África. A ideia defendida era a desregulamentação dos mercados, a abertura comercial e financeira e a redução do tamanho e do papel do Estado. Quem nos alertou desse movimento foi o ganhador do Prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz, que, ao abordar as promessas não cumpridas da globalização, identificou a pressão que as economias latino-americanas da época sofreram pelos organismos financeiros internacionais, sem que houvesse na desregulamentação políticas compensatórias para combater efeitos colaterais das privatizações. No tocante às privatizações, houve pressão para que os países adotassem scorecards com notas mais altas para países que privatizassem suas estatais com maior celeridade. O FMI tomava por pressuposto que os mercados se ergueriam com rapidez para satisfazer todas as suas necessidades, mas não eram todos os países que possuíam estruturas de mercados aptas a absorverem atividades recém-privatizadas, o que foi excessivamente deletério em algumas economias da África, por exemplo. Ainda, em países com alto índice de percepção de corrupção, houve um incentivo à aceleração da privatização, pois, segundo exposição de Stiglitz, ao venderem estatais por preços abaixo do mercado, eles acabavam abocanhando parcela dos valores para si, não desejando deixar a oportunidade para outras gerações de agentes políticos eleitos. Então, chegando ao ponto da resposta: existem interesses econômicos na venda das estatais, sem dúvida. Ainda, outro aspecto que contribui para essa campanha difamatória na atualidade é a questão da corrupção. Infelizmente, importantes estatais brasileiras já foram alvo de corrupção, sobretudo porque a indicação política de quadros dirigentes já serviu para superfaturamentos, desvios para gerar abastecimento de caixa 2 em campanhas políticas, em esquemas operados por diversos partidos políticos. O mesmo ex-Presidente Michel Temer, que, curiosamente, pressionou para que houvesse a criação célere da Lei 13.303/2016, para que, em tese, houvesse indicações mais técnicas, como uma resposta à Lava Jato, logo após o impeachment de Dilma Rousseff, atualmente, após o seu mandato, é associado a supostos desvios operados em Angra 3, conforme noticia a mídia… O que ocorre de fato é que se houve desvios em estatais e há “lama” para todos os lados, sendo que alguns dirigentes mal-intencionados foram pegos, tal qual raposas, furtando “ovos” das galinhas, isso não significa que devamos alienar nossas granjas a “preço de banana”. Se houve a identificação de desvios e de fraudes, o mais adequado é, a nosso ver, a correção de tais distorções, ou seja, a sujeira deve ser limpa, preservando-se o que é bom, de acordo com o ditado: “don´t throw the baby out with the water” (não jogue o bebê fora com a água – suja – do banho)! É curiosa a imaturidade que se vê diante dessa situação no País… Há empresas como a Volkswagen, com ativos de 431 bilhões de dólares e 20% de participação estatal, que possuem uma pujança significativa no mercado automobilístico mundial. Esteve envolvida em diversos escândalos, a exemplo do Diesel Gate, com aplicativos de fraude na quantificação de emissão de gases poluentes, mas: pergunte ao povo alemão se deseja ver a Volks alienada ou se deseja sua quebra? Claro que não! Desejam que a empresa faça o mea culpa, não apenas no discurso, mas também no discurso, que assuma, praticamente, a responsabilidade das fraudes perpetradas e que mude suas práticas para outras mais conformes, respondendo pelos danos causados, promovendo as devidas indenizações, mas jamais que seja quebrada ou mesmo prejudicada enquanto empresa.

Fábrica da Volkswagen na Alemanha, onde ocorreram graves casos de corrupção, mas nem por isso o povo alemão pede a aniquilação da empresa.
20% do capital da Volks ainda hoje são do Estado.

Mesmo empresas alemãs que contribuíram com o nazismo, hoje fazem políticas de reparação, pois colocaram pessoas dos campos de concentração para trabalhar para elas, sendo que o povo alemão, com toda assunção de culpa pelo Holocausto, que existe, ainda assim, não deseja que suas empresas quebrem ou que sejam alienadas. Mas, por outro lado, aqui no Brasil, curiosamente, vê-se pessoas praguejando o fim de empresas pujantes como a Petrobrás… Depois dos escândalos, a Petrobrás também se adequou aos parâmetros de conformidade mais exigentes, sendo que, no momento, ela possui um dos mais avançados canais de denúncias, gerido por empresa independente e especializada, que atende em três idiomas e 24 horas por dia, gerando periodicamente diversas punições. A Petrobrás foi responsável por investir em perfuração e exploração em solos profundos, com tecnologia própria, em parceria com universidades e centros de pesquisa, sendo inclusive por esse investimento tecnológico que o Brasil descobriu o Pré-Sal na plataforma continental brasileira. A descoberta do Pré-Sal é considerada a maior descoberta mundial no segmento de petróleo nos últimos 50 anos.

Vivemos hoje no Brasil um contexto de desindustrialização acelerada sem muita perspectiva de reversão. A economia nacional vai sendo primarizada cada vez mais. Há relação entre este processo e o ataque às estatais? Qual seria?

Sim, é um movimento de “primarização” de nossa economia, que, infelizmente, as pessoas não associam com a desindustrialização… Acham que o Brasil está se adequando à sociedade da informação, que seria um movimento mais avançado, mas o nosso País está se transformando, como costuma vaticinar Gilberto Bercovici (Professor Titular do Departamento de Direito Econômico da USP e também Pesquisador do programa de Direito Político e Econômico Pós Stricto Sensu do Mackenzie), em: (1) uma “grande mina” ou (2) numa “grande fazenda”, para fornecimento de produtos primários para o mercado estrangeiro. A industrialização nos permitiria agregar algum valor, ainda que seja num produto primário, por exemplo, em vez de exportar café em grãos, fazer cápsulas de máquina, investindo na sua fabricação em escala, para que as relações fossem equilibradas… Antes as minas eram exploradas por estatais, agora a exploração foi privatizada. Não se trata de necessariamente produzir produtos por estatais, mas de fortalecer as estatais para fazer aquilo que elas fazem, como, por exemplo: auxiliar no acesso ao crédito bancário, como política econômica de Estado, investir em pesquisa e tecnologia, prestar serviços públicos ou mesmo atuar em atividades econômicas em sentido estrito nos casos em que há imperativo de segurança nacional ou relevante interesse coletivo que justifique estrategicamente a sua atividade. As estatais já serviram para abastecer a indústria nacional em condições melhores… Apesar delas se capitalizarem com investidores, sobretudo as sociedades de economia mista, que possuem capital aberto para aquisição de particulares, o objetivo central delas é promover esse desenvolvimento e não simplesmente “lucrar”, como uma empresa da iniciativa privada, pois se este fosse o seu objetivo precípuo, não teria razão mesmo de ser estatal. Daí você vê, por exemplo, uma empresa como a CETESB, em São Paulo, que se ocupa, dentre diversas atribuições relevantes, da qualidade do ar, ainda foi auxiliar nos efeitos do Dieselgate no Brasil, tendo de, na adequação à nova legislação, apresentar seu “plano de negócios”, como se o seu objetivo precípuo fosse principalmente apresentar excelentes resultados financeiros…

Unidade de monitoramento da qualidade do ar da CETESB, em São Paulo. Estatal paulista agora é obrigada a fazer “plano de negócios”, como se sua finalidade fosse dar lucro.

Então, um ponto que deixamos claro na obra é que: algumas estatais não precisam ou não devem dar lucro… Elas devem ser sustentáveis, dentro dos parâmetros de economicidade, mas elas podem até dar prejuízo ou se o que entregam, como lucro ou produtividade social, é mais valoroso em termos sociais, significa que estão contribuindo com a sua função.  Outro ponto que ressaltamos na obra Estatais é que é uma mentira que as estatais dão, no conjunto, prejuízo, pois o conjunto de estatais brasileiras, conforme dados do Ministério do Planejamento, dá lucro! Aliás, se o movimento de combate à corrupção, que é válido e legítimo, acabar servindo de pano de fundo para venda acelerada de estatais lucrativas e que se voltam a auxiliar o País no seu processo de desenvolvimento, sugere-se que os seus arautos usem todo o tipo de cor de camisa, menos aquela “verde e amarela”, pois acaba sendo uma contradição em termos desejar a entrega das estatais brasileiras a interesses estrangeiros e ainda se sentir “nacionalista” com isso… Mas o Brasil tem dessas lamentáveis contradições…

Falando de privatização: uma nova onda de privatizações de empresas estatais está no horizonte e promete ser violenta; o que esperar como resultado do programa Paulo Guedes?

O atual governo está bastante oscilante em relação à sua atuação, sem um planejamento e medidas harmônicas, então, não se torna claro se tudo o que anuncia será cumprido. Aliás, alguns políticos curiosamente fazem com que a gente torça para não cumprirem com tudo o que anunciam, na contramão daqueles que sonham com políticos que cumpram com suas promessas… Mas, passados 100 dias de governo, percebe-se uma grande instabilidade, troca de Ministros, ainda, um vai e vem de decisões incoerentes, sendo prioridade do momento na agenda governamental a Previdência. O próprio Paulo Guedes, que deseja ceifar todas as estatais, e conta com o apoio do empresário fundador da locadora de automóveis Localiza, Salim Mattar, à frente da Secretaria de Privatizações do Governo, diz (em teor de lamentação…) que o Presidente quer preservar algumas grandes, como a Petrobrás e o Banco do Brasil. Ao passo que, em outra senda, o filho do Presidente, o Senador Flávio Bolsonaro dá parecer favorável à medida provisória para criar a NAV Brasil, estatal de navegação aérea… Na verdade, acompanhar o atual governo deve ser feito um dia após o outro, sem expectativas de coerência, porque não dá para saber quais Ministros ficarão, o que será cumprido, quais medidas efetivamente serão apoiadas daqui por diante. Enfim, é difícil predizer qualquer coisa… Amanhã pode ser que haja uma mudança de rumo e de discurso… Mas, por outro lado, lamentavelmente, não há dúvidas que há um ímpeto violento de privatizações em curso… Esse ímpeto parte de visões ultraliberais, de pessoas que advêm da iniciativa privada, sobretudo do setor especulativo, sendo que muitos deles possuem pouco apreço pelo setor produtivo e menos ainda pelo papel empreendedor do Estado, na injeção de tecnologia no setor produtivo, seja pelas estatais ou pela via do estímulo público de fomento, mesmo aqueles que cresceram seu patrimônio com esse tipo de estímulo estatal… Pior: querem vender as estatais para supostamente diminuir as dívidas públicas… Tenho a impressão de que quando o “gigante adormecido”, deitado em berço esplêndido, acordar desse delírio de implodir a estigmatizada ‘velha política’, a pretexto de um suposto combate à corrupção, sem pensar em estruturar uma ‘nova política’, que efetivamente seja melhor, espero que as pessoas se toquem que isso tudo foi feito muito menos por um projeto de melhoria das condições de vida do povo brasileiro do que por outros interesses. Mas pelo que vi de discurso em minha última viagem à Argentina, acho pouco provável que haja essa reflexão, infelizmente. Quanto a essa questão de vender para pagar dívidas, é uma situação bizarra. Basta lembrar que após as privatizações de Fernando Henrique Cardoso, mesmo com todos os elevados ganhos, muitos dos quais abasteceram contas de offshore de algumas figuras (na linha da observação que foi feita por Stiglitz, ao relatar dos scorecards de privatizações), não houve como resultado tal diminuição da dívida… Para não ficar em elucubrações, estudos da UFF apontam que, entre 1995 e 2003, apesar da receita extra de 93 bilhões com privatizações, a dívida liquida da época cresceu de 27 para 52% do PIB… Como vamos vender fonte de renda para pagar dívidas? Ainda vemos políticos falarem, com x dinheiro extra, poderemos injetar em mais saúde e educação. Daí nos indagamos: se essas fossem mesmo pautas prioritárias, o que seria desejável, do ponto de vista social, porque cortam investimentos hoje nessas áreas, mesmo podendo investir mais? Será, em muitos casos, um presentear de estatais lucrativas para algumas figuras e alguns grupos poderosos internacionais, coisa que os países desenvolvidos não deixam acontecer (não adianta se comparar com os Estados Unidos, pois o Trump atua de forma muito mais estratégica em termos protecionistas de seu mercado…), daí minha esperança é que ao menos a mídia oficial permita que seja feito um balanço sincero dos resultados que advirão… de preferência com aprendizados que não foram permitidos no passado… Mas, até sobre isso não gostaria de nutrir falsas expectativas, pois estamos em tempos de pós-verdade e o povo acredita no que crê e não no que os fatos demonstram…

Em termos mundiais, avalia que o processo de difamação e desestruturação das estatais no Brasil tem paralelo em outros países?

Tem paralelo com o movimento ocorrido no passado na Europa Oriental, já foi feito no México e em diversos países africanos quando Stiglitz escreveu sua obra sobre os malefícios da globalização. Todavia, na atualidade, o paralelo mais perfeito que podemos traçar mora ao nosso lado, pois é nossa vizinha Argentina. Um movimento similar de, sob o pretexto de uma ‘nova política’, supostamente menos corrupta, adoção de políticas neoliberais, com alienações de estatais, menos investimentos em políticas sociais (curiosamente, na atualidade, os organismos financeiros internacionais são avessos às retrações de políticas sociais na América Latina, até isso mudou…) e, agora, há serviços caros e inacessíveis à população, não universalizados, com inúmeros problemas sociais de difícil equacionamento, só que parte do povo diz que: “do jeito que estava, mesmo que bom para o povo, não dava, pois era MUITA corrupção, mesmo que hoje também tenha ainda bastante corrupção”… Um contrassenso encontrável no discurso de algumas pessoas (não são todas) com as quais se conversa nas ruas do país, que são contra políticas sociais e assistenciais, pois acham que o povo deve trabalhar duro e com menos direitos, mesmo com um desemprego estrutural e involuntário de parcela da população. Aliás, bem similar ao que pode ocorrer no nosso País, então, pode ser que amanhã sejamos nós, com esse tipo de situação. Espero que não… Na década de oitenta, a Argentina e o Brasil eram pujantes… Eram exemplos. Eram promessas… fomos deixados para trás por países   asiáticos e por inúmeros outros países que investiram em educação e no papel empreendedor do Estado. Um exemplo interessante disso foi dado pelo autor argentino, Marcelo Gullo, que veio ao Mackenzie a convite do Gilberto Bercovici falar de subdesenvolvimento e relações internacionais na América Latina, com base em sua obra “a insubordinação fundadora”.

Eiji Toyoda geralmente leva o crédito por ter feito a Toyota se tornar a líder mundial na fabricação de carros. Mas a empresa foi salva pelo Estado japonês quatro vezes.

Segundo Gullo, no vídeo transmitido pelo Portal Disparada, a Toyota, que é atualmente a maior montadora do planeta, com atuação em 160 países, foi salva pelo Estado japonês da quebra por quatro vezes (apesar de todas as restrições de protecionismo que os Estados Unidos impunham ao Japão depois da guerra), pois ela não conseguia fabricar, em trinta anos, um carro competitivo no mercado internacional. Mas o feito foi alcançado na década de setenta. Ao passo que a Argentina teve a produção de seu próprio carro no mesmo período, pela Siam Di Tella, fundada em 1911 por um imigrante italiano argentino (Torcuato Di Tella), sendo que no começo dos anos oitenta, com o colapso financeiro nacional de então, a Siam Di Tella entrou em falência, e o Estado argentino simplesmente se eximiu de ajudá-la, deixando-a falir, sem tomar medidas para salvá-la, pois se acreditava que as empresas devem sobreviver por suas próprias forças.

Já a marca argentina de automóveis Di Tella foi deixada à morte pelo Estado, o que veio a contribuir para a atual dependência e crescente pobreza no país.

Percebe-se, então, principalmente a partir da crise de 2008, em que os Estados Unidos também compraram ações da GM, para evitar a quebra e suas externalidades no mercado interno, que há, como bem enfatiza Bresser Pereira, após a crise, a desmoralização da ideologia globalista, que caracterizou os 30 anos do Capitalismo Neoliberal (1979-2008), pois se tratava de uma ideologia que condenava o nacionalismo dos países em desenvolvimento enquanto os países ricos praticavam sem hesitação seu próprio nacionalismo, pois não tinham dúvidas de que o papel do Estado é defender o conhecimento, o trabalho e o capital nacional. Há serviços caros que estão passando por reestatização em países centrais, como os Estados Unidos e a Alemanha. Conforme dados do Transnational Institute, centro de estudos da Holanda, desde 2000 houve ao menos 884 serviços reestatizados, sendo que 83% dos casos aconteceram de 2009 em diante, depois da crise. A Alemanha fez 348 reestatizações, a França fez 152 e os Estados Unidos fizeram 67. A Alemanha possui atualmente 15 mil estatais. Veja como as pessoas por aqui não estão por dentro do que ocorre em países desenvolvidos. Na obra Estatais apresentamos dados de estatais nos seguintes países: China, Coreia do Sul, Japão, Vietnã, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, França, Chile e Bolívia. Só não foram expostos mais pela urgência de trazer essa obra à luz, antes que seja tarde para a conscientização dos estudiosos do tema.

Por fim, na sua opinião, qual é o futuro do Estado empreendedor no Brasil e, se possível avaliar, no mundo?

No Brasil, o Estado não conseguirá assumir o papel efetivo de empreendedor se os agentes políticos não se derem conta de que ele deve ter estruturas, recursos (materiais e humanos) e meios para conseguir capitanear esse processo, estimulando, fomentando e induzindo pesquisas para que haja inovação, aspecto fundamental ao desenvolvimento no atual estágio do Capitalismo. As estatais são, em muitos casos, apoiadoras do setor produtivo… Mas, infelizmente, são vistas eminentemente como concorrentes ou até mesmo como empresas que merecem ser desdenhadas para serem adquiridas a preços baixos, dentro do adágio de que “quem desdenha, quer comprar”.  No mundo desenvolvido, os Estados já se dão conta e articulam ações efetivas em conjunto com centros de pesquisa, universidades e estão de olho para que estatais de outros países não se apropriem de suas próprias empresas. A ChemChina, estatal chinesa, por exemplo, adquiriu a Singenta e agora apresenta padrões elevados de pesquisa biotecnológica, e os Estados Unidos, com receio da ascensão da China enquanto potência, estabeleceu limites às aquisições chinesas de dadas atividades em seu território. Nós (na verdade, não somos nós, é o atual governo…) estamos entrando numa espécie de paranoia ideológica fora de contexto histórico do ponto de vista da política externa, abrindo mão de questões estratégicas por reações pouco racionais. Então, acredito que continuaremos levando desvantagem nas trocas econômicas do mundo e, se não surgir no Brasil um neodesenvolvimentismo pujante, capaz de influenciar os rumos da política externa e interna corrente, é mesmo provável que nos tornemos um local de ainda maior concentração de renda, aumento da criminalidade, e, com o curso avançado da tecnologia, grande desemprego estrutural, menos oportunidades sociais, em que os políticos só se preocuparão em prestar contas para grupos econômicos que olharem para nós não para atender às necessidades de bem-estar de nossa população, mas para explorar nossos recursos, tal qual minas ou fazendas (conforme frase de impacto do Gilberto Bercovici), lucrar sem maiores limites jurídicos, com a desregulação em curso, pois a tarefa de se ocupar do desenvolvimento e do bem-estar das pessoas é do Estado, se este for amesquinhado, diminuído ou figurativamente apedrejado em nome dos interesses privados, não teremos como ser um país com futuro… Seremos o país que foi no passado uma promessa, que poderia ter sido o país do futuro, por isso, eu e o Alessandro Octaviani fizemos a obra Estatais, pois somos preocupados com o desenvolvimento e em trazer à luz qual é a função que estas empresas cumprem ou podem cumprir em termos de relevante interesse coletivo, para alertar a todos de suas missões constitucionais, nem sempre divulgadas de forma clara. No mundo desenvolvido não há a desvalorização das estatais, muito pelo contrário. Então, o futuro do Estado empreendedor no Brasil é incerto, mas os países desenvolvidos, por sua vez, praticam suas políticas para assegurar condições estratégicas de suas atividades econômicas, e contam, para isso, com Estados empreendedores e atentos.