O jornal Valor Econômico noticia hoje, dia 26 de março, que o ABC Paulista vai virar o símbolo da desindustrialização do país, com perda no seu PIB Industrial entre 2013 e 2016 de quase 39% (descontada a inflação do período). Além disso, o nível de emprego industrial naquelas cidades ficou 12,5% menor entre 2013 e 2017. O desemprego consolidado no ABC em 2017 era de 17,7%.

Com o fechamento e transferência de fábricas dali para outros lugares do Brasil ou do mundo, o derretimento do polo industrial do ABC é evidente.

As causas deste processo são muitas e muito diferentes entre si. Mas chamo a atenção para uma interpretação falaciosa que certamente vai tentar se apropriar desta informação para reforçar sua posição política anti-desenvolvimento. Me refiro à retórica anti-indústria do ultraliberalismo.

Não dê ouvidos à falácia de que a indústria está destinada a sumir por causa da tecnologia.

Esta interpretação dirá que a perda de atividade industrial é um fenômeno esperado e quase natural, e que se deve exclusivamente às evoluções tecnológicas que, supostamente, solucionariam através de serviços vários problemas da vida social que antes eram solucionados com produtos industriais. Assim, dizem eles, a indústria estaria destinada a acabar.

Nada mais mentiroso! Aponto duas grandes razões e uma constatação.

Primeira razão

A indústria brasileira está em processo falimentar não por falta de necessidade por seus produtos. Ela encontra suas principais barreiras em um conjunto de boicotes internos e externos.

O maior deles é o sequestro financeiro. Desde a chamada “crise da dívida” dos anos 80, o Brasil vem sendo obrigado a reduzir o volume de dinheiro circulando na economia a fim de pagar uma dívida interna e externa que é composta tanto por motivos legítimos como ilegítimos. Só que esta restrição à livre circulação de recursos leva o governo a ter que tomar mais dívidas no mercado financeiro, o que nos levou a uma situação de re-endividamento sucessivo com escalada de juros compostos, e ainda por cima sem alívio na restrição à circulação de dinheiro pela economia real. Ou seja, o que se tem hoje é uma ilegítima restrição da demanda interna por bens e serviços. Não à toa, enquanto o Brasil produtivo sangra e morre, o Brasil financeiro tem taxas de lucro que nem nos países mais liberais se verificam.

O boicote à produção industrial nacional é feito também pelo chamado “custo Brasil”, que nada mais é do que um conjunto de deficiências logísticas que encarecem o produto industrial (de todos os setores). São as estradas esburacadas, os portos pequenos demais, o ínfimo número de quilômetros de ferrovia instalados, pouca produção de energia etc. Tudo isso deveria ter sido resolvido há muitos anos, mas aí novamente entra em ação o sequestro dos recursos públicos e privados pelo sistema financeiro, impedindo a renovação e o crescimento da infraestrutura do país.

Para piorar, há boicotes externos, como a pressão por fazer o Brasil deixar de ser considerado uma economia em desenvolvimento e entrar no jogo do “livre comércio” mundial, onde perderá todas as batalhas porque a competitividade industrial nacional está sob boicote interno há quarenta anos.

A indústria se renova constantemente. Hoje, ela se configura como um laboratório de protótipos e produtos customizados com alto valor agregado.

Segunda razão

A segunda razão pela qual a indústria não está destinada a acabar é a seguinte: como qualquer atividade produtiva na história humana, a indústria se renova constantemente. O que pode estar em via de terminar é o chamado Fordismo (modelo de produção industrial em série que sempre visa grandes escalas de produção para conseguir o barateamento marginal do produto). Mas isto não é a principal indústria dos nossos dias.

Tirando produções seriadas realmente massivas, como alimentos e bebidas, uma grande quantidade de indústrias hoje se configura como laboratórios de protótipos e produtos customizados. Assim, elas produzem quantidades moderadas, mas agregam muita qualidade. A qualidade é a pesquisa e o desenvolvimento de soluções, ou seja, o conhecimento.

Isto nos leva a concluir que, longe de morrer, a indústria está em seu esplendor. Mais do que nunca ela pode gerar (e gera) alto valor agregado para as economias de seus países.

Um país com só 12% de suas rodovias pavimentadas precisa de mais ou menos
máquinas de pavimentação?

A constatação

Finalmente, a constatação que derruba o argumento da morte natural da indústria pode ser verificada nas questões abaixo.    

O Brasil tem 12% de rodovias pavimentadas. Você acha que serão necessárias mais ou menos máquinas de pavimentação?

O Brasil tem um déficit de esgoto sanitário de 50% das residências. Você acha que serão necessários mais ou menos bombas, manilhas, válvulas, escavadeiras, filtros e purificadores?

O Brasil precisará aumentar sua produção de energia se quiser voltar a crescer. Você acha que serão necessários mais ou menos transformadores, geradores a combustão, aerogeradores, placas fotovoltaicas, tanques de gás, linhas de transmissão, cabos, guindastes, postes, voltímetros e etc?

O Brasil tem um déficit habitacional de milhões de unidades. Você acha que serão necessários menos ou mais cimento, concreto, vergalhões, tinta, portas, janelas, fixações, fechaduras, vidros, tubos e conexões, torneiras, azulejos, vasos sanitários, pias etc?

O Brasil tem terríveis carências de transporte nos municípios menores, principalmente em regiões metropolitanas. Você acha que serão necessários mais ou menos ônibus, trens e metrôs (cada um dos quais é composto por milhares de peças, desde motores e transmissões até assentos e janelas)?

Enfim, a lista de perguntas similares é potencialmente infinita. Não dê ouvidos, portanto, ao argumento que naturaliza a desindustrialização do Brasil, pois ele é falso e só serve aos interesses das economias desenvolvidas que são altamente industrializadas e pretendem manter o nosso país na condição miserável de produtor de bens primários e nada mais.

Por Fausto Oliveira