O ministro da Economia volta dos Estados Unidos com o bolso cheio de promessas, mas entregou as mãos e os anéis aos Estados Unidos e ao sistema financeiro internacional. Seu plano parece tão contrário ao desenvolvimento do Brasil que é o caso de perguntar: qual é o Brasil que Paulo Guedes deseja construir?

Ele quer dar uma vida extremamente fácil aos “investidores internacionais”, mesmo que para isso o Brasil e os brasileiros venham a sofrer.

Se de fato privatizar o Banco do Brasil, Guedes vai levar a agropecuária brasileira a pagar juros de mercado para financiar a safra. Como a safra em um país tropical é sempre incerta, os juros subsidiados do Banco do Brasil sempre foram um instrumento de proteção que garante a sobrevivência do agricultor (o empresarial e o familiar). Sem o subsídio, a produção de alimentos vai ficar menos segura e mais cara. Muitos agricultores vão à falência, tornando-se miseráveis do campo. E consumidores mais pobres nas cidades terão que comer menos, pois a comida vai subir de preço.

Se de fato privatizar o sistema Eletrobras, Guedes vai dar sinal verde para que a conta de luz seja calculada de acordo com os valores de interesse dos compradores internacionais, pois é improvável que a agência reguladora (Aneel) mantenha algum poder de regular os preços da energia na ponta do consumidor. Além disso, Guedes dará acesso às fontes de água doce do país aos especuladores mundiais, já que o sistema Eletrobras gestiona bacias hidrográficas inteiras, de onde retira eletricidade através das usinas hidrelétricas.

Privatização da Eletrobras levaria a aumento nas contas de luz e, pior ainda, daria o controle de grande parte da água doce brasileira a empresas internacionais.

Com relação à Petrobras, o assunto é um pouco mais grave. Não se trata apenas de privatizar. Antes da anunciada privatização, a empresa está sendo primarizada. Por orientação da equipe de Guedes, a Petrobras já está deixando de lado as atividades de refino de petróleo e produção de derivados. Ou seja, está saindo do negócio de plásticos, asfalto, resinas, óleos especiais, e vai ser apenas uma extratora de óleo bruto. Isso já está acontecendo: a Petrobras está deixando de produzir coisas que têm valor agregado para apenas vender barris de petróleo. Claramente, quando Guedes vender a Petrobras, ela já estará bem barata e sem valor.

Cabe lembrar que essa estratégia levará a uma dependência absoluta no setor de combustíveis. Os agentes privados internacionais e nacionais definirão como quiserem os preços cobrados, o que vai afetar severamente toda a cadeia de preços ao mercado consumidor.

Na parte de infraestrutura, o plano de Guedes é colocar rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e coisas similares à disposição das empresas internacionais do setor. Como já se viu no leilão de 12 aeroportos, o preço pedido será muito baixo e as condições de investimento muito favoráveis aos concessionários. Não vai ser surpresa, portanto, quando a infraestrutura privatizada elevar o custo aos usuários sem que isso se compense por melhorias significativas na qualidade. Novamente, a cadeia de alta de preços ajudará a colocar mais pressão na ponta consumidora. Ou seja, no povo.

Guedes e sua turma querem uma Petrobras reduzida à extração de petróleo bruto, para vendê-la barato no futuro. Combustível mais caro é uma certeza.

Enquanto isso, Guedes mobiliza a classe política de todo o país a apoiar seus planos de uma austeridade extrema. A reforma da Previdência quer instituir um cenário de restrição à seguridade social, através de vários instrumentos. Paralelamente a ela, uma nova reforma Trabalhista já avisa que o trabalhador será pressionado a renunciar ao Adicional de Férias, FGTS e seguro desemprego pela adoção da infame “Carteira de Trabalho Verde e Amarela”. Para os estados endividados, Guedes planeja um arrocho ainda maior do que já existe, o que vai pressionar para baixo a renda destes trabalhadores de serviços essenciais.

Sobre os endividamentos estaduais, a receita inclui ainda a proibição ou restrição a concursos públicos para repor vagas. Ou seja, em vez de aumentar a oferta de serviços educacionais e de saúde, ela vai diminuir. Paulo Guedes vai comandar um processo de redução do número de médicos, enfermeiros, bombeiros, policiais, professores, cozinheiras escolares e tantos outros profissionais essenciais. Logicamente, vai usar esta situação como justificativa para passar tudo a operadores privados, como os planos de saúde.

A justificativa para estas opções políticas destruidoras da cidadania é a seguinte: é preciso estimular o empreendimento privado no Brasil. Paulo Guedes defende, portanto, que após toda esta restrição, o investimento estrangeiro vai compensar toda essa perda com seu poder de gerar empregos para os brasileiros. Mas quais empregos? Com que qualidade? Com que nível de salário? Quais garantias? Tudo indica que os empregos que vierem serão restritos a uma classe de profissionais com alto nível de qualificação, enquanto ao resto do povo sobrarão empregos de quinta categoria.

O Brasil de Paulo Guedes é um país camelódromo. Trabalho desvalorizado, relações de mercado regulando tudo e baixa sofisticação produtiva.

Bem, chegamos ao ponto em que basta “somar os canos”: restrições à renda do trabalho + fragilizações da economia brasileira + encarecimento da vida cotidiana + redução da oferta de serviços públicos = empobrecimento generalizado.

A conclusão é bastante evidente. Paulo Guedes quer transformar o Brasil num país shopping, onde tudo é comércio regulado exclusivamente pelas leis de mercado. Sendo que, na nossa economia tão pouco desenvolvida, este shopping vai se parecer mais com uma grande galeria de quiosques com produtos de baixa qualidade, em que a população mal remunerada vai trabalhar 17 horas por dia sem perspectiva de futuro. Um país camelódromo!

As verdadeiras riquezas do país, e as verdadeiras potencialidades do país e de seu povo, estas estarão em mãos de gente já bastante rica e desenvolvida, em outros lugares do mundo. Não será exagerado afirmar: Paulo Guedes quer fazer o Apocalipse socioeconômico do Brasil.

Por Fausto Oliveira