Concessão de aeroporto acontece no mundo inteiro. Em geral, os governos passam toda ou parte da administração de um aeroporto para uma empresa, recebe um pagamento por isso e ainda exige da empresa que vai lucrar com o aeroporto uma série de investimentos em melhorias.

O que o governo Bolsonaro fez na semana passada, no entanto, não tem nada a ver com isso. Por que?

Dos três lotes leiloados, o do Nordeste era o grande filé: imagine o quanto vale operar por 30 anos os aeroportos de Recife, Maceió, Aracaju, Juazeiro do Norte, João Pessoa e Campina Grande. Imagine quanto dinheiro não se gera nesses aeroportos na alta temporada do verão, especialmente no Carnaval. No resto do ano, as populações de todos esses lugares entram e saem dali o tempo todo por estes aeroportos.

A Aena, empresa espanhola que vai passar a ganhar o dinheiro desta operação, vai passar a ficar com 100% do dinheiro das taxas de embarque, 100% dos aluguéis de lojas e restaurantes, 100% dos valores pagos pelas companhias aéreas, 100% do valor pago por prestadores de serviço de transporte terrestre e outros serviços. Por nada menos que 30 anos!

Estes seis importantes aeroportos do Nordeste deveriam, portanto, ser repassados à administração privada por um valor potente. No final, a Aena pagou R$ 1,9 bilhão. Mas quanto o governo federal pedia para conceder estes seis aeroportos? Acredite: o governo pedia R$ 171 milhões.

Mesmo com um valor mais de 10 vezes superior ao que o governo pedia, a Aena está muito feliz com o negócio. Pagou barato! Seis aeroportos em áreas turísticas muito procuradas e com grande população, por R$ 1,9 bilhão! Não lhe custou nada. Isto era um negócio para, pelo menos, 3 ou 4 bilhões de reais. Considere que alguns dos aeroportos agora entregues foram ampliados pelo governo recentemente, para a Copa etc.

Mas o escândalo mesmo é o que o governo Bolsonaro pedia: pelos seis aeroportos nordestinos o governo aceitaria receber apenas R$ 171 milhões! Você que é brasileiro, nasceu aqui e aqui vive, sabe o que é isso? 171 milhões de reais não dá para construir nem metade do menor destes seis aeroportos.

Fica então a evidente conclusão de que o governo Bolsonaro não está interessado em resolver o problema econômico do Brasil. Eles querem mesmo é dar facilidades para estrangeiros e banqueiros, a troco de nada. Não é possível concluir outra coisa: uma concessão tão subavaliada como essa não permite concluir outra coisa.

No site da Aena, é possível ler a notícia: de todos os aeroportos concedidos a ela no mundo, os do lote nordestino brasileiro são os primeiros onde ela vai administrar 100% da concessão. Vai, portanto, viver 30 belos anos com gordas receitas indo daqui para a Espanha.

Passageiros pagarão taxa de embarque mais caras à Espanha. Empresários pagarão aluguel de lojas e restaurantes mais caros à Espanha. Transportadores pagarão taxas maiores para operar nos aeroportos da Espanha no nordeste. Tudo em nome da empresa privada, que supostamente é a dona de toda a eficiência em tudo que existe. Mas, se você chegou até aqui, saiba: a Aena é uma empresa espanhola fundada pelo governo do seu país, que hoje ainda é dono de 51% de seu capital.

Por Fausto Oliveira