Estive conversando recentemente com o presidente da filial brasileira de uma grande multinacional de máquinas e equipamentos. O assunto, claro, era indústria.

Em certo momento da conversa, ele menciona o fato de que o PIB da Califórnia é do tamanho do Brasil, mas fazendo uma ressalva: “isso é uma distorção, porque uma só empresa californiana contribui com a maioria desse valor, a Apple. Mas a Apple produz os seus iPhones na China! Então o que vai para a Califórnia é o faturamento de uma operação feita fora”.

Ele não estava errado, mas eu apresentei um contra-argumento. Disse a ele: “o problema é que o valor de um iPhone está na engenharia eletrônica fina e no software, e isso é feito na Califórnia e por lá fica. A China faz a parte grossa e pobre do processo”.

O alto executivo teve então que concordar, lembrando que quando morou nos Estados Unidos era comum ouvir a expressão “Designed by Apple, made in China”. Ou seja, projetado pela Apple, feito na China.

Onde está o valor real do iPhone? No projeto ou na manufatura?

O caso me fez pensar em como se configura a produção industrial de vanguarda no mundo atual, e como ela se reflete na divisão internacional do trabalho. Existem aqueles que projetam, aplicando conhecimento avançado e alta tecnologia, e aqueles que fazem o trabalho menos intelectual de manufatura básica e/ou montagem.

Não importa que as duas partes se encontrem num único produto. A verdade é que se o produto é de alto valor agregado, a maioria da riqueza que ele gera vai ficar retida na parte sofisticada, aquela que projeta. A parte que o produziu fisicamente vai ficar com um resto que na melhor das hipóteses gera uma riqueza média (mas normalmente gera pouco).

O atual processo de desindustrialização do Brasil está retirando o pouco de “Designed by” que o nosso país já teve, deixando espaço para sermos apenas aqueles do “Made in”. Pior ainda: certos segmentos industriais já não desenvolvem no país sequer as possibilidades de manufatura básica.

Sem reverter esse processo, o Brasil vai empobrecer mais e mais. É ilusão acreditar que a exportação de bens primários (soja, minérios, café, milho, celulose etc) vai dar conta de sustentar a importação de toda a tecnologia que o mundo está produzindo cada vez mais rapidamente.

E não se trata só da importação de bens de consumo como smartphones. Pense que toda a alta tecnologia hospitalar usada no país é importada (tomógrafos, ultrassom, laboratórios, centrífugas etc). Pense que os trens que todo mundo quer na sua cidade para os sistemas de metrô e VLT são importados. Acha mesmo que a troca internacional dos nossos produtos primários por bens de alto valor agregado como estes é sustentável no longo prazo? Não vê que isso gera um déficit corrente (diferença entre o dinheiro que o país ganha ao vender e o que perde ao comprar)?

A reversão da desindustrialização, no entanto, é muito difícil. Dependeria de uma decisão política que o governo atual, tal como os anteriores, não quer tomar. Seria preciso convocar as universidades e dar-lhes apoio para produção de pesquisas tecnológicas em todas as áreas possíveis, com a finalidade de criar soluções de processos e produtos, a fim de gerar novas patentes locais e produzir bens de mais alto valor agregado.

Seria preciso acreditar mais nas empresas nacionais e apoiá-las de maneira a que se transformassem em centros de desenvolvimento de tecnologias em suas áreas.

Seria preciso criar uma política de transferência de tecnologias que alimentasse as empresas nacionais com novas possibilidades de participar do mercado internacional.

E muitas outras iniciativas.

Nada disso vai acontecer sem um projeto de desenvolvimento devidamente empoderado no país. O lado bom da história é que sempre há novos problemas a resolver, com novas soluções e novas tecnologias.

Mas sem acordar para o desenvolvimento, a única certeza é que vamos continuar perdendo esta e as próximas ondas na evolução material e econômica do mundo.

Por Fausto Oliveira