Todos os meses, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) lança uma pesquisa chamada Sondagem Indústria da Construção. Nela, verifica-se junto a empresas do setor de construção civil como andam alguns dados importantes, como o nível de atividade, o nível de empregos e a utilização da capacidade instalada das empresas (uso de máquinas, insumos e mão de obra).

A lógica da Sondagem é a seguinte: divide-se uma tabela de 100 pontos em duas partes, acima e abaixo do 50. Para todos os dados pesquisados, acima de 50 é considerado terreno positivo, e abaixo é terreno negativo. Assim, a série histórica vai mostrando se os dados pesquisados estão em movimento de melhora ou de piora.

A Sondagem de janeiro foi divulgada neste dia 25 de fevereiro. E mostrou o seguinte:

– O nível de atividade caiu para 44 pontos (terreno negativo), ficando 1,6 ponto abaixo de janeiro de 2018 e 0,4 ponto abaixo de dezembro.

– O nível de emprego andou para trás em janeiro e ficou em 42,5 pontos (negativo), e isto foi 1,4 ponto menor do que o verificado em janeiro de 2018 e 0,3 ponto menor do que em dezembro.

– A utilização da capacidade instalada (único dado calculado em porcentagem) ficou em 55% do total, evidenciando uma elevada ociosidade na indústria da construção.

Outra informação importante que saiu nesta Sondagem Indústria da Construção foi de que a intenção das empresas em investir caiu 2 pontos, ficando em 36 pontos (negativo).

PORÉM…

Curiosamente, no mesmo dia a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), que é uma entidade que reúne construtoras de todo o país, divulgou seu estudo Indicadores Imobiliários Nacionais, com dados de 2018.

Quem olhar só a pesquisa da CBIC vai ter uma impressão diferente, pois segundo as empresas, a construção de casas e prédios residenciais e comerciais pôs no mercado 98.562 novas unidades (3,1% a mais do que em 2017). As vendas de unidades imobiliárias cresceram 19,2% em 2018, fechando com 120.142 unidades vendidas.

Ora, se o setor imobiliário está obtendo êxito econômico a mesmo tempo em que os níveis de atividade, emprego e uso da capacidade instalada na construção civil como um todo estão em queda, o que isso significa?

Algumas conclusões

1 – Do ponto de vista do emprego na construção, são as grandes obras de infraestrutura de uso público que mais empregam. De forma que comemorar o reaquecimento do mercado imobiliário por causa de juros mais baixos não faz sentido do ponto de vista de desenvolvimento socioeconômico. É apenas o crescimento de um setor da economia sem benefícios para além dele.

2 – Mesmo que o Banco Central tenha divulgado uma prévia do PIB 2018 com crescimento calculado em 1,21%, este número não é uma recuperação, dado que é muito pouco sobre uma base muito ruim. Tanto é assim que um dos setores mais intensivos em emprego (a construção) ainda não voltou a empregar.

3 – A política de baixar juros básicos (Selic) sem que isso se reflita nos juros de mercado só reaquece o poder de compra de classes privilegiadas. Tanto é assim que a baixa na Selic ao longo de 2018 se refletiu em maior compra de imóveis por quem pode adquirir dívidas de longo prazo, sem reflexo positivo no emprego, nem na distribuição de renda. Acreditar que Selic baixa por si só faz o país se desenvolver é uma ilusão.  

4 – Investimentos públicos e privados em grandes obras públicas são o caminho para o retorno do nível de emprego direto na construção. Por seu volume e características técnicas mais específicas, estas obras mobilizam uma grande cadeia de agentes econômicos locais que são empregadores indiretos. A proibição autoimposta pelo Estado para investir, sob o pretexto da “responsabilidade fiscal”, ajuda a perpetuar o nível de desemprego que vem levando mais e mais brasileiros à informalidade e à miséria.

Por Fausto Oliveira